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Segunda-feira, Janeiro 19, 2004
Joaquim Ferreira dos Santos O Globo, 19/01/2004 A geração u-hu! Eu não acredito que você acredita que um ser humano acredite que ¿espécime que come espécime adquire o mal da vaca louca¿. Pois eu vi, já que não vejo novela e é preciso saber as notícias do país, eu vi o ¿Big Brother Brasil¿ e estava lá. Um negão azul, um perfeito cruzamento do Lothar do Mandrake com a Vera Verão da ¿Praça da Alegria¿, filosofando para seus 14 colegas de todas as cores. Alguém ainda tentou argumentar ¿ o jardineiro de um cemitério do interior de São Paulo, um cruzamento perfeito do cantor Vinny com o Ciro Bottini do Shoptime ¿ que espécime que come espécime dá é poder. Mas o Lothar foi enfático. Poder coisa nenhuma, meu irmão. Dá vaca louca. Na veia. Você não vê televisão? A atual Globeleza, requebrando o pandeiro, esta, todo mundo já sabe. Foi reproduzida em computadores. A de verdade está grávida. Eu vi o Zeca Camargo de blusão-astronauta, domingo no ¿Fantástico¿, e apesar de ter minhas dúvidas, apesar de ele estar na frente de uma foto do planeta Marte, não vou avançá-las. Acho-o humanamente crível e terráqueo. Agora, sobre os 14 sujeitos do ¿BBBrasil¿, eu agarântchio . Clones de si próprios. A fórmula está trancada num cofre da sala três, corredor Norte, do Projac. Os homens de televisão, que em brilho técnico só têm páreo no Brasil com os homens de futebol e da música, saíram na frente dos cientistas nas fórmulas de reprodução humana. O ¿BBB¿ é a exposição anual dessas conquistas genético-televisivas. Nossos sábios não mexem em tubos de ensaio, não conjuminam óvulos e espermatozóides. O lance é limpo. Aplique na audiência, por anos e anos, uma programação de baixas calorias intelectuais. Entregue suas meninas aos conselhos da Xuxa, da Eliana e daquela outra loura que estreou ontem. Os adolescentes, matricule-os na escolinha de ¿Malhação¿. A miséria brasileira faz o resto. Eis aí, inteirinha em seu vídeo, a geração u-hu! Há três anos, em quatro programas, o ¿Big Brother Brasil¿ recepciona em seu cafofo de Jacarepaguá os jovens criados pela televisão nos últimos tempos, gente que acreditou nos professores transmitidos pelo vídeo e hoje se veste com a coleirinha da Cláudia Abreu em ¿Celebridade¿ e fala como se estivesse saindo de uma aula de filosofia ministrada por Cláudio Heinrich na novela ¿Uga-uga¿. Gritam muito, mas nunca proparoxítonas. Olham-se o tempo todo no espelho, nunca no fundo do olho. Vagueiam, andróides sem alma, teletubbies que adolesceram zumbis, pelo espectro azul da existência televisiva. Durante três meses, esses big brothers vão ter um reforço naquela dieta sem qualquer proteína espiritual que os criou. Foram trancados numa casa cheia de aparelhos de ginástica mas nenhum livro. Cérebros flácidos, glúteos firmes, eis o Brasil do ¿BBB¿. Você não viu, porque a câmera passou muito rápido. Mas, quando os competidores entraram na casa, eu anotei o brasão e ex-líbris sobre o portão: ¿Emburreço, logo, apareço¿. Todos lêem ¿Caras¿, viram a nova casa da Juliana Paes. Querem-nas. A casa. A Juliana. A fama. Quem não? Essas pessoas, algumas com visual inspirado num Bob de Niro visto numa ¿Tela Quente¿, outros copiando o cantor mineiro do Skank, acreditaram nos personagens de ficção criados pela televisão e os reproduzem, com o ridículo inevitável, na própria televisão. Ao mesmo tempo, vitoriosos que são, ganhadores de carros, R$ 500 mil e convites nas festas de celebridades, transformam-se nos mestres dos guerreiros do próximo ¿Big Brother¿ ¿ e, assim, vão projetando para o futuro um país cada vez mais superficial, ignorante, tatibitate, adepto da pernada, do fuxico e da crença cega de que os olhos de ressaca da Capitu não dão para saída se o bumbum da rival arrebita maneiro na borda da piscina. A geração u-hu!, mas pode me chamar de geração caraca!, jóias de interjeição sem as quais eles não se comunicariam, sucede à geração Coca-Cola de que falava Renato Russo. Estes eram filhos da revolução, gente deprimida com a falta de uma para fazer. Morreram nas drogas, no tédio-xadrez da camisa do Kurt Cobain. Agora foram substituídos pelos filhos da televisão, cruzamentos perfeitos de Paulo Vilhena com Barbara Paes. Vale o que está escrito na tatuagem deles. Olhos verdes, omoplatas azuis, bíceps de açaí e vontade louca de acreditar ¿que existe vida além da morte¿, como dizia sonhar uma garota, lutadora de boxe, quarta-feira passada no ¿BBB¿. Ela falava aos gritos, coitada, e desculpava-se. ¿É que fiquei surda de tanto ouvir disc-man¿. Queria, e o meu analista me permita dar de graça um toque que está custando R$ 200 por sessão, ela queria é acreditar em qualquer mentira para ter o que declarar ao repórter da ¿Quem acontece¿. O ¿BBB¿ é o provão da televisão, a oportunidade que ela tem de mostrar como estão os alunos formados por seus programas-pegadinhas, shows dos milhões, e ao mesmo tempo ser avaliada de volta por suas aulas. Pois então vamos abrir a papeleta do primeiro jurado. Ze-ro, nota ze-ro. Do segundo: ze-ro, nota ze-ro. O mais velho dos jogadores do ¿Big Brother¿ tem 31 anos, passou a vida acompanhando de casa a Danielle Winits turbinando o contracheque a cada copo de silicone que lhe fazia o mesmo com os peitos. O mais novo tem 22 e já leu na ¿Flash¿ que o Erick Marmo, na tarde em que pegava uma namorada na porta do estúdio, foi fisgado para a carreira de ator. Nenhum deles foi vitaminado com a dieta certa de educação e bons propósitos por um meio tão poderoso. No máximo aprenderam com a televisão a disfarçar o vazio que vai por dentro com penteados, caraca!, que eu vou te contar. Não têm culpa. Acham todos, u-hu!, que lhes chegou a vez ¿ e tomara que assim seja. Jovens, bonitos e saudáveis precisam acreditar em alguma coisa urgente, pois, se Deus quiser, a vida depois da morte ainda custa e está longe, bem para lá de depois da Ilha de Caras. Quarta-feira, Janeiro 07, 2004
POR QUE É QUE A GENTE É ASSIM (Enio Padilha - Engenheiro Escritor e Palestrante) É na Escola de Engenharia que começa a ser destruída a nossa auto-estima. É na Escola de Engenharia que começa a ser forjado o nosso comportamento autodestrutivo, nosso desprezo pelos valores da própria profissão, nosso desgosto com a nossa própria atividade profissional. É na Escola de Engenharia que nasce a nossa falta de coragem empresarial e essa submissão inaceitável aos caprichos dos clientes. É batata ! Toda vez que, numa conversa qualquer, o assunto "comportamento no mercado" vem à tona acabamos caindo nas inevitáveis comparações de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos com Médicos, Dentistas e Advogados... Quando me perguntam o que eu acho disso (dessa comparação de profissionais tão diferentes) respondo sempre a mesma coisa: acho que essa comparação é JUSTÍSSIMA. Se eu, engenheiro, por qualquer motivo, tiver de ser comparado com outros profissionais, acho muito justo que seja com médicos, com dentistas ou com advogados.Afinal temos muito mais coisas em comum do que diferenças. Somos todos prestadores de serviços. Nosso produto (nosso serviço) é altamente especializado e todas essas atividades demandam profissionais com capacidade intelectual superior. Não se chega a ser médico, advogado, dentista, agrônomo, arquiteto ou engenheiro apenas por ter um belo par de olhos, uma voz doce ou algum dinheiro no banco... O exercício das profissões e o comportamento empresarial de cada grupo, no entanto, é o que têm construído enormes diferenças operacionais,comportamentais e, conseqüentemente, patrimoniais, entre engenheiros médicos, arquitetos, dentistas, advogados e agrônomos. Mas isso não elimina as semelhanças imensas que sempre tiveram e que ainda têm. Neste texto concentramos nossas reflexões sobre a formação dos profissionais de engenharia. No entanto, nossa experiência e a convivência com milhares de arquitetos e agrônomos dos mais distantes lugares do Brasil nos permitem acreditar que os conceitos podem se estender sem problemas também para esses profissionais. Voltemos no tempo. Voltemos ao tempo em que essa pessoa (que hoje é um engenheiro) tinha seus quinze, dezesseis anos, um ou dois anos antes do vestibular. Esse moço ou essa moça é, muito provavelmente, um dos melhores alunos da sua sala (talvez da escola). É um expoente estudantil, requisitado pelos colegas, elogiado pelos professores, respeitado pelos pais, de quem é motivo de muito orgulho, valorizado pelos parentes, pelos vizinhos, admirado pelas garotas (ou garotos).Comparemos nosso amiguinho com o estudante de quinze ou dezesseis anos que virá a ser médico, dentista ou advogado. Veremos quase nenhuma diferença. É isso mesmo. Na origem, são todos iguais. Têm o mesmo perfil, a mesma história, o mesmo rendimento. Todos são brilhantes e bem sucedidos. Vem o vestibular. Ingressa, cada qual na faculdade que escolheu... E é aí que as diferenças começam a aparecer. Os estudantes de medicina e de odontologia são enquadrados em um ambiente novo, com pessoas que se vestem de uma maneira diferente, se comportam de uma maneira diferente e que estabelecem uma identidade visual (e, por decorrência, uma identidade psicológica) com a atividade profissional que irão exercer alguns anos depois.Os estudantes de direito, já nos primeiros meses de escola convivem com professores que vêm para as aulas de terno, gravata, sapato social, barba feita ou bem cuidada. E o mais interessante: aqueles senhores e senhoras respeitáveis, bem vestidos e de fina educação (os professores), tratam os seus alunos por "senhor" ou "senhora", com toda a fineza e educação que a prática profissional recomenda. E estimulam seus alunos a acreditar e se convencerem de que são superiores. Que estão se preparando para "falar com o Estado" (privilégio que não é concedido a nenhum outro profissional...). Enfim, aprendem que precisam respeitar os outros, mas aprendem, antes de tudo, que precisam exigir respeito para si. Nos últimos anos de faculdade, estudantes de odontologia e medicina já se vestem como se médicos ou dentistas fossem. Freqüentam clínicas e atuam como profissionais na área da saúde. Assumem, enfim, um ou dois anos antes determinada a faculdade, todo um comportamento típico de médico. De dentista. Os estudantes de Direito, por sua vez, a partir da Segunda metade do curso,já se vestem como advogados (roupa social, sapato, eventualmente gravata e um terno ou blazer...). Mantém com os seus professores e com os seus colegas um comportamento e um vocabulário apropriado para as lides jurídicas. E, o mais importante: são tratados, pelos seus professores, como Doutor. (Dr. Fulano, termine seu relatório até a próxima aula. Dr.Sicrano, esteja preparado para a prova final, na sexta-feira.). Apesar de ainda não terem concluído o curso. Os estudantes de engenharia, ao contrário, desde o início do curso, a única diferença que eles conseguem perceber na faculdade, em relação ao ensino médio é o grau de dificuldade (que simplesmente quintuplica!) Não existe nenhum estímulo a um comportamento novo, nenhuma referência, um exemplo positivo de comportamento. Nenhuma motivação para um desenvolvimento psicológico alternativo. Nenhum elemento que interfira na formação do profissional do ponto de vista da sua imagem física composta de aspectos visuais e comportamentais. A vida social, no ambiente da faculdade, é muito restrita, quando não inexistente. Além do mais, a faculdade entra na vida desses jovens como um elemento de ruptura. Os alunos são colocados em uma condição a que eles não estavam acostumados. Estavam acostumados a tirar notas máximas com a maior facilidade e, de repente, passam a sofrer e ter grandes dificuldades para obter notas mínimas ou médias. Deixam de ser respeitados pelos seus professores que se tornam distantes e autoritários e perdem a admiração dos colegas que estão todos desesperados tentando se salvar de uma coisa que ainda não estão entendendo direito. Não que as faculdades de medicina, direito ou odontologia sejam fáceis. Ocorre que lá os estudantes têm compensações psicológicas que os estudantes de engenharia não têm. Essas faculdades, por diversos mecanismos, inexistentes nas escolas de engenharia, dão continuidade ao amadurecimento psicológico e social do futuro profissional. E, com isto, mantêm em alta a motivação e auto-estima dos seus estudantes. Na engenharia não existe nenhum processo de acompanhamento psicológico para aquele estudante desesperado que teve a sua carreira de sucesso estudantil subitamente interrompida (mesmo os alunos que continuam conquistando notas altas, acabam sentindo a falta do aplauso dos colegas, do respeito dos professores e da admiração coletiva). E não existe ninguém para explicar o que está acontecendo. Ninguém para dizer a este estudante que ele não é tão inepto ou incapaz como, algumas vezes os professores parecem querer provar. É quase geral, por parte dos professores, nas escolas de engenharia, o exercício gratuito de poder e o terrorismo psicológico. E o aluno, que entrou na faculdade no auge positivo da auto-estima, vai recebendo, ao longo de cinco anos, das mais variadas formas, uma única mensagem: "Você não é tão bom quanto você pensava que fosse!". Ao contrário dos estudantes de direito, medicina ou odontologia, que têm como professores, profissionais que atuam no dia-a- dia de suas atividades, os estudantes de engenharia passam cinco anos submetidos aos rigores (e, em alguns casos, caprichos) de engenheiros que não atuam, profissionalmente, como engenheiros e sim como professores, e que, portanto, não têm a vivência da atividade profissional e não têm a ciência ou a consciência das relações comerciais que vão definir o sucesso ou o fracasso dos profissionais que eles estão formando. Como resultado disso, ao final de cinco anos, o estudante de engenharia se transforma em um engenheiro. E este engenheiro é completamente desprovido de auto-estima, de respeito próprio, de prazer profissional ou de consciência de mercado. Na metade do último semestre da faculdade, dois meses antes de receber o diploma e ser entregue aos leões do mercado, o estudante de engenharia ainda é tratado como mero es-tu-dan-te. Em momento algum, durante a faculdade, o estudante de engenharia é tratado como engenheiro, em momento algum, durante esses cinco anos, a escola propicia a percepção da mudança de condição de estudante para a condição de profissional. Estudantes de direito, medicina e odontologia, ao contrário, muito antes do fim da faculdade já têm uma noção razoavelmente clara das dificuldades do exercício profissional que eles irão enfrentar. Com isso vão desenvolvendo mecanismos psicológicos de defesa e saem da faculdade com maior grau de segurança. Entram no mercado profissional de cabeça erguida, com uma consciência de valor. E com todo o processo de construção da imagem profissional em andamento. Estudantes de engenharia não são estimulados a se vestir bem, nem a ter preocupações com técnicas de comunicação ou relacionamento social ou de exercício intelectual não linear. Com isso acabam não desenvolvendo habilidades gerenciais ou de relacionamento com o mercado. Esta é uma das razões pelas quais as organizações de engenharia são quase sempre extremamente burocráticas e conservadoras. Os engenheiros, via de regra, só vão perceber os resultados da negligência com a imagem física e o comportamento no mercado, depois de já terem acumulado algumas perdas desnecessárias (algumas das quais, infelizmente, irreversíveis). E qual é a utilidade desse discurso? Qual a importância de se colocar este tema no papel? Porque tornar pública esta opinião, que, com certeza aborrecerá alguns segmentos? Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que a simples leitura deste ensaio leve um diretor de escola de engenharia, um professor, um estudante ou um profissional de engenharia a alterar o seu comportamento. O que se espera é que essas pessoas, a quem o texto é dedicado, tenham um momento de reflexão. E que a esse momento de reflexão se siga uma atitude. E que essa atitude tenha como objetivo dar um futuro melhor para a engenharia no Brasil. A engenharia depende dos engenheiros. E os engenheiros começam a ser formados aos quinze ou dezesseis anos, ainda no ensino médio. Eu ainda acho, como sempre achei, que o conhecimento científico que é transmitido aos estudantes durante a faculdade de engenharia é fundamental. E que o valor da engenharia está sustentado na capacidade intelectual e técnica dos seus profissionais. No entanto, vejo como importantíssima uma nova visão, nesse processo de formação do engenheiro, que leve em consideração todo o relacionamento social dos estudantes entre si e com os seus professores. É importante que, aos estudantes, seja transmitida uma visão mais clara das relações comerciais que eles enfrentarão na vida profissional, seja na condição de profissionais autônomos, empresários ou empregados em alguma empresa. Em qualquer um desses casos as relações sociais são elementos definitivos para o sucesso. É um "detalhe" que faz toda a diferença. Na Escola de Engenharia o engenheiro precisa ser "construído" para ser um vencedor. Precisa ser estimulado a acreditar no seu potencial. Confiar na sua inteligência. E, acima de tudo, precisa aprender a importância de manter a cabeça erguida. Todo ser humano pode ser uma 'quimera' Grupo sugere que sejam comuns pessoas com diferentes repertórios de DNA nas células e que mistura ajude a saúde Claire Ainsworth escreve para o 'New Scientist': Você é um médico e uma de suas pacientes, de 52 anos, vem consultá-lo muito preocupada. Um teste revelou algo inacreditável sobre dois de seus três filhos adultos. Embora os tenha concebido com o marido, que é seguramente o pai deles, o teste diz que ela não é sua mãe biológica. De algum modo ela teria dado à luz filhos de uma outra pessoa. Não se trata de uma 'pegadinha', mas de um caso real que Margot Kruskall, médica do Centro Médico Beth Israel Deaconess de Boston (EUA), enfrentou cinco anos atrás. A paciente, cujo nome fictício fica sendo 'Jane', precisava de um transplante de rim, e sua família realizou exames de sangue para ver se algum parente seria um doador adequado. Quando os resultados chegaram, eram más notícias: a carta dizia abertamente que dois dos três filhos não poderiam ser seus. Foram necessários dois anos para Kruskall e sua equipe decifrarem o enigma. Eles descobriram que Jane é uma quimera, a mistura de dois indivíduos - irmãs gêmeas não-idênticas - que se fundiram no útero da mãe. Algumas partes de seu corpo derivaram de uma gêmea, outras partes, da outra. Parece bizarro que isso possa acontecer, mas Jane não é um caso único. Cerca de 30 exemplos similares de 'quimerismo' já foram relatados. Longe de sermos indivíduos de sangue puro, compostos por uma única linhagem de células, nossos corpos seriam mestiços celulares, coalhados de células de nossas mães, talvez até de avós e irmãos. Durante a gravidez, o sangue da mãe e do feto são mantidos separados, mas algumas células conseguem se insinuar. Com efeito, de 80% a 90% das mulheres carregam células ou DNA de seus filhos no sangue durante a gravidez. 'Mulheres abrigam células das suas mães e dos seus filhos', afirma J. Lee Nelson, imunologista do Centro de Pesquisa de Câncer Hutchinson, em Seattle, EUA. Para estudar isso, Nelson e sua colega Natalie Lambert têm procurado células maternas no sangue de mulheres adultas. Em artigo a ser sair na revista especializada 'Arthritis & Rheumatism' (http://www.rheumatology.org/ar/ar.html), eles descrevem como a análise do sangue de 32 mulheres saudáveis mostrou que 22% delas carregam glóbulos brancos de suas mães. Não se sabe se a troca de células entre mãe e filho é um acidente, ou se cumpre algum propósito. Fator importante poderia ser que as células fetais transferidas para a mãe sirvam para encorajar o sistema imune materno a tolerar o feto. (Folha de SP, 13/11) Terça-feira, Outubro 28, 2003
Comentário: O significado das palavras de Mahathir NYT Por Paul Krugman, do The New York Times :: 18:51 22/10 "Os europeus mataram seis milhões de judeus de um total de 23 milhões. Mas hoje os judeus comandam o mundo por procuração: Eles fazem com que outros lutem e morram por eles". Isso foi dito por Mahathir Mohamad, o primeiro-ministro da Malásia, durante um encontro na semana passada. A Casa Branca imediatamente denunciou isso de "colocações cheias de ódio racial". Leia mais abaixo Na realidade, esses comentários são inadmissíveis. Mas eles também foram calculados - Mahathir é um político cauteloso, que não é nem ignorante e nem tolo. E para entender porque ele fez esses comentários é uma forma de se perceber como as coisas vão mal com a política internacional dos Estados Unidos. O fato é que Mahathir, apesar de culpado por sérios abusos de poder, é de considerado um líder muçulmano de visão ampla. E a Malásia tem uma história de sucesso que gostaríamos de encontrar com maior freqüência: recorde em crescimento econômico, alto nível de educação e uma nação moderna de maioria muçulmana. Vale a pena lermos o resto do discurso da semana passada, além das 28 palavras ofensivas. A maior parte das críticas se dirige aos outros muçulmanos, os clérigos em particular. Mahathir critica "intérpretes do Islã que ensinaram suas interpretações adquiridas aos muçulmanos como se fossem verdades absolutas da teologia muçulmana". Graças a esses intérpretes "o estudo da ciência, medicina etc. foi desencorajado. Intelectualmente os muçulmanos começaram a regredir". Grande parte do discurso parecia ter sido escrito por Bernard Lewis, autor de "O que deu Errado no Oriente Médio", o best-seller sobre o declínio do islamismo. E o que isso tem a ver com anti-semitismo? Quase certamente é parte das atitudes domésticas de equilíbrio de Mahathir, algo que eu percebi na última vez que ele falou dessa mesma forma durante a crise financeira asiática de 1997-98. Naquela época, mais do que aceitar os programas austeros recomendados pelo governo dos Estados Unidos e o FMI, ele acusou as armações dos especuladores ocidentais, e impôs controles temporários nos fluxos de caixa - uma atitude criticada por todos, principalmente os economistas ocidentais. Mas no fim a sua estratégica econômica mostrou-se eficaz: a Malásia sofreu uma crise superficial e conseguiu uma retomada mais rápida que seus vizinhos. O que se tornou claro observando Mahathir naquela ocasião é que sua estridente retórica era parte de um delicado ato de manobra em sua política interna. A Malásia tem uma maioria muçulmana, de etnia malaia, mas os negócios estão em geral nas mãos de uma minoria de etnia chinesa. Para manter a economia em crescimento, Mahathir tem que permitir que a minoria chinesa prospere. Mas para eliminar tensões étnicas, ele deve prometer favores, reais e retóricos, para os malaios. Parte desse equilíbrio envolve garantir aos malaios bons empregos e dar boas oportunidades de negócios para seus empreendedores. Uma boa razão para Mahathir ser tão contra o FMI eram os planos austeros que ele temia que pudessem atrapalhar todo o tratamento especial que mantinha o sistema funcionando. Quando os tempos eram difíceis, Mahathir lançava à maioria muçulmana a velha retórica cheia de referências religiosas apelativas. E era isso que ele estava fazendo na semana passada. Há pouco tempo atrás, Washington falava sobre a Malásia como um importante parceiro na guerra contra o terror. Agora Mahathir acredita que para cobrir seu lado doméstico, ele deve inserir palavras de ódio em seu discurso, principalmente sobre as reformas muçulmanas. Esses comentários anti-americanos e anti-semitas têm forte apelo entre os muçulmanos do sudeste da Ásia. Graças à guerra no Iraque e ao incondicional apoio a Ariel Sharon, Washington destruiu todas as simpatias que conquistou depois do 11 de setembro e trouxe a relação com os muçulmanos a um nível baixo jamais atingido. Mas devemos levar em consideração que as colocações de Mahathir foram escritas antes que o mundo escutasse as palavras do general William Boykin "Meu deus é maior que o de vocês". Deixando claro que ele não vê nada de errado em dar um importante posto na guerra contra o terror para alguém que acredita, e diz abertamente, que Alá é um falso ídolo - o general Boykin negou que tivesse tido a intenção de dizer isso, mas sua negação foi inaceitável mesmo para os seus apoiadores - Donald Rumsfeld percorreu um longo caminho para desfazer os estragos que os comentários fizeram entre os muçulmanos. Em algum lugar do Paquistão, Osama bin Laden deve estar rindo disso tudo. A guerra contra o terror não era para ser uma guerra contra o Islã, mas parece que temos feito de tudo para que isso aconteça. Quarta-feira, Outubro 15, 2003
Como Nasrudin criou a verdade Nasrudin (Khawajah Nasr Al-Din) ¿ As leis não fazem com que as pessoas fiquem melhores ¿ disse Nasrudin ao Rei. ¿ Elas precisam, antes, praticar certas coisas de maneira a entrar em sintonia com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente. O Rei, no entanto, decidiu que ele poderia, sim, fazer com que as pessoas observassem a verdade, que poderia fazê-las observar a autenticidade ¿ e assim o faria. O acesso a sua cidade dava-se através de uma ponte. Sobre ela, o Rei ordenou que fosse construída uma forca. Quando os portões foram abertos, na alvorada do dia seguinte, o Chefe da Guarda estava a postos em frente de um pelotão para testar todos os que por ali passassem. Um edital fora imediatamente publicado: "Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso na cidade permitido. Caso mentir, será enforcado." Nasrudin, na ponte entre alguns populares, deu um passo à frente e começou a cruzar! a ponte. ¿ Onde o senhor pensa que vai? ¿ perguntou o Chefe da Guarda. ¿ Estou a caminho da forca ¿ respondeu Nasradin, calmamente. ¿ Não acredito no que está dizendo! ¿ Muito bem, se eu estiver mentindo, pode me enforcar. ¿ Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade! ¿ Isso mesmo - respondeu Nasrudin, sentindo-se vitorioso. ¿ Agora vocês já sabem o que é a verdade: é apenas a sua verdade. O Mullá Nasrudin (Khawajah Nasr Al-Din) escreveu, no século XIV em que viveu, histórias onde ele mesmo era personagem. São histórias que atravessaram fronteiras desde sua época, enraizando-se em várias culturas. Elas compõem um imenso conjunto que integra a chamada Tradiçã Sufi, ou o Sufismo, seita religiosa ou de sabedoria de vida, de antiga tradição persa e que se espalha pelo mundo até hoje. Como o budismo e o zen-budismo, o sufismo sempre aliou o (bom) humor com sabedoria. O text! o acima foi publicado no livro ¿Histoires de Nasroudin¿, Éditions Dervish, s.d., e extraído do livro ¿Os 100 melhores contos de humor da literatura universal¿, Ediouro ¿ Rio de Janeiro, 2001, pág. 50. organização de Flávio Moreira da Costa Fonte: e-mail da Mariana Terça-feira, Setembro 30, 2003
ESSE SOL JÁ SE PÕE? A ONU tenta conter um Império que se imagina nascente ¿ mas que alguns pensadores garantem já estar nas últimas. Por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa - Carta Capital, 01/10/2003 Depois de abrir a 58ª sessão da Assembléia Geral da ONU, ao condenar o novo ataque às Nações Unidas no Iraque e o caos que a ocupação trouxe ao país, o secretário-geral, Kofi Annan, atacou a política de ação preventiva, por abrir precedentes para a proliferação do uso unilateral e ilegal da força, com ou sem justificativa. ¿Essa lógica representa um desafio fundamental aos princípios sobre os quais a paz e a estabilidade mundiais repousaram nos últimos 58 anos.¿ ¿Pode-se, talvez, vencer uma guerra isoladamente. Mas não se pode construir a paz duradoura sem o concurso de todos. Não podemos confiar mais na ação militar do que nas instituições que criamos com a visão da história e a luz da razão¿, acrescentou o presidente Lula ao falar em seguida. Colocado no banco dos réus, o Império não se deu por achado. O redator da Casa Branca pareceu ter até esquecido que seu país já invadiu o Iraque e não encontrou lá ¿armas de destruição em massa¿, nem qualquer ligação com o terrorismo. O presidente Bush, terceiro a falar à Assembléia Geral, defendeu, mais uma vez, a ação preventiva contra terroristas equipados com armas não-convencionais. Voltou a pedir tropas e dinheiro para a reconstrução do Iraque, mas sem especificar se as nações que quiserem colaborar terão algum grau de controle sobre seu uso. Muito menos oferecer um papel político à ONU no Iraque ou qualquer outra concessão ao presidente francês Jacques Chirac, que pede uma rápida devolução da soberania ao Iraque e, ao chegar sua vez de falar, insistiu em seu ponto de vista: ¿A guerra lançada sem aprovação do Conselho de Segurança abalou o sistema multilateral. Ninguém pode se arrogar o direito de usar a força unilateralmente e preventivamente, nem aceitar uma sociedade sem regras¿. O veredicto do júri não pareceu favorável ao acusado. De acordo com a insuspeita agência Reuters, ¿enquanto Bush recebeu aplausos protocolares, Chirac, Annan e Lula inspiraram ovações muito mais sustentadas¿. Pouco importa, diriam tanto os apologistas da Pax Americana quanto muitos de seus críticos mais ferrenhos. O domínio dos Estados Unidos sobre o mundo nunca foi tão esmagador. Para a imprensa neoconservadora norte-americana, é às Nações Unidas que cabe engolir a retórica vazia e, se não quiserem deslizar definitivamente para a irrelevância, pedir desculpas, aceitar o papel subalterno que Bush generosamente lhes estende e mostrarem-se úteis ao Projeto para um Novo Século Americano, de Wolfowitz, Rumsfeld e companhia. Para o sociólogo norte-americano James Petras, ultra-esquerdista, é exatamente isso que a ONU já fez ¿ embora, naturalmente, esteja mais cético quanto à viabilidade, a longo prazo, da pretensão norte-americana de recriar o mundo à sua imagem e semelhança. Há, porém, outra interpretação, que ganhou plausibilidade com os acontecimentos recentes. Para o historiador e demógrafo francês Emmanuel Todd e o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein, os acontecimentos que estamos a presenciar são sintomas de uma hegemonia agonizante. As duas análises, ainda que partam de ideologias opostas e adotem modelos explicativos bem diferentes ¿ Todd privilegia aspectos antropológicos, educacionais e demográficos e Wallerstein, a infra-estrutura econômica ¿, convergem no diagnóstico e no prognóstico: é para disfarçar sua decadência e impotência que o Império ostenta força militar. Em poucas décadas, Washington comandará apenas uma potência entre outras. A questão é como administrar seu declínio da melhor forma possível para todos ¿ inclusive para os próprios EUA. Wallerstein é um marxista, e é notório como sua escola tradicionalmente tendeu a ser demasiado apressada ao prever o inevitável declínio do inimigo. Mas Todd tem uma boa folha de serviços como profeta. Em 1976, quando a União Soviética estava no auge de seu poderio militar e de sua presença global, Todd publicou um ensaio chamado La Chute Finale (A Queda Final) em que anunciava, para antes do fim do século, o colapso do império soviético. Um cenário que nenhum dos lados da Cortina de Ferro julgava então concebível. No ano passado, em Depois do Império, assegurou que a hegemonia norte-americana está com os dias contados: desaparecerá completamente antes de 2050. O autor define-se como liberal (no sentido clássico, não no neoliberal), elogia Fukuyama, leva muito a sério a suposta ¿lei de Doyle¿ (que, formulada pelo cientista político Michael Doyle nos anos 80, assegura não serem possíveis guerras entre democracias liberais) e considera o capitalismo a única organização econômica razoável, desde que não seja entregue a si mesmo. Não pode ser acusado de antiamericanismo sistemático: pelo contrário, afirma que a hegemonia norte-americana existe desde o final da Segunda Guerra Mundial e, até 1990, foi benéfica para o mundo. Parece até esquecer a Guatemala, o Brasil, a República Dominicana, o Chile e demais democracias golpeadas direta ou indiretamente pelo Império liberal ao longo do século XX. Ao contrário do que ele parece acreditar, a aprovação pela Casa Branca da tentativa de golpe na Venezuela não rompeu um anterior compromisso com a democracia, mas confirmou uma velha tradição. Mesmo assim, Todd afirma que o surgimento do Império está sendo proclamado ¿ ou denunciado ¿ no preciso momento em que começa a se decompor, apenas uma década depois de seu rival soviético. A atual agressividade dos EUA, para ele, limita-se a um militarismo teatral, ostentado contra micropotências como Cuba, Coréia do Norte ou Iraque para justificar sua movimentação militar mundial, afirmar-se como imprescindível e retardar a conscientização das demais potências chamadas a compartilhar o controle do planeta ¿ Europa, Japão, Rússia e China. ¿Fale manso, mas carregue um porrete grande (big stick)¿, recomendava Theodore Roosevelt, o fundador do imperialismo norte-americano. Se, um século depois, o atual ocupante da Casa Branca prefere falar cada vez mais grosso, talvez seja por temer que seu porrete não é grande o suficiente. Apesar do orçamento recorde do Pentágono, Todd garante que isso já não basta para manter a hegemonia. O poder real no mundo moderno está na esfera econômica ¿ e nesta os EUA perdem, dia a dia, seu brilho. Sua produtividade é inferior à da Europa Ocidental e do Japão e sua balança comercial em produtos industriais é deficitária em mais de 10% de suas necessidades de consumo. Já é negativa até mesmo em produtos de alta tecnologia. A estagnação da demanda no resto do mundo, resultado da compressão dos salários pelo livre comércio e pelo neoliberalismo, permitiu a Washington exercer sobre as nações um papel regulador típico de um Estado keynesiano. Os demais países se portam, diz Todd, como súditos à espera da retomada global promovida pela Casa Branca. Em sua obra mais famosa, o economista John Maynard Keynes mostrou uma irônica simpatia para com os faraós construtores de pirâmides, gastadores, mas reguladores da atividade econômica. Os EUA, diz Todd, são a nova pirâmide, mantida pelo trabalho de todo o planeta (será aquela que aparece no dólar, sobre a inscrição Novus Ordo Seclorum ¿ A Nova Ordem Secular?). O enorme déficit comercial norte-americano é uma tributação imperial, como o que permitia à plebe romana consumir muito mais do que produzia. E os cidadãos mais capazes, como entre os antigos romanos, transformam-se em improdutivos advogados, guarda-livros e guarda-costas de seus plutocratas. Os EUA, porém, não podem obter tributo por coerção militar, como faziam os césares. Seu poder necessita da servidão voluntária das classes dirigentes européias e asiáticas, que espontaneamente oferecem seus capitais em troca de segurança e de alta rentabilidade financeira. Para Todd, ao serem sistematicamente depenados pelas fraudes contábeis de Wall Street e, ainda por cima, tratados como súditos de segunda categoria, essas classes dominantes vão concluir que aderir ao império deixou de ser uma opção razoável ¿ e arrastarão consigo seus próprios satélites. Os EUA não têm como impor obediência e tributo. Salvo contra forças muito inferiores, seu exército de terra nunca se mostrou realmente eficaz, o que impede a ocupação do terreno e a constituição de um espaço imperial no sentido habitual do conceito. Essa avaliação soava atrevida ao ser escrita, mas parece confirmada pela dificuldade do Pentágono em controlar o Iraque, apesar de comprometer nisso metade do Exército. Além disso, os EUA carecem da vocação universalista indispensável a um império ¿ e, de acordo com a teoria de Todd, não por uma opção política e ideológica conjuntural, mas por causa da estrutura antropológica de sua cultura. O universalismo implica uma crença sincera na igualdade dos povos, formada desde a infância por uma estrutura familiar que garanta a igualdade entre os irmãos ¿ seja segundo o modelo de família extensa e comunitária sob um patriarca autoritário, como na Europa Oriental, seja sob uma família nuclear igualitária, como em muitos países latinos. Seria preciso crescer em algum tipo de família igualitária para se aceitar a fusão de culturas e construir verdadeiros impérios ¿ como o dos romanos, que souberam promover a fusão de culturas e assimilar o pensamento grego e as religiões do Oriente. Ao contrário, tanto a família de tipo germânico, baseada na linhagem ¿ que privilegia forçosamente o primogênito ¿, quanto a família nuclear anglo-saxônica ¿ que permite ao pai privilegiar ou deserdar os filhos de acordo com sua vontade ¿ induziriam atitudes diferencialistas, mais rígidas no primeiro caso, mais flexíveis e caprichosas no segundo. Os EUA precisariam excluir uns, incluir outros e traçar em algum lugar uma linha divisória, ainda que esta não precise ser tão absoluta e inalterável como para a Alemanha nazista, inspirada no primeiro modelo. Um império universal estaria, por isso, fora de seu alcance. A concorrência com o universalismo russo teria forçado as possibilidades antropológicas dos EUA ao máximo nos anos 60, quando tentaram convencer o mundo de que eram capazes de integrar até a minoria negra. Na ausência do desafio soviético, porém, seu universalismo regride a olhos vistos. É patente o crescimento da exclusão de negros e ¿hispânicos¿ dentro do país para compensar a aceitação de imigrantes asiáticos e europeus e a incapacidade de ver os árabes como seres humanos, em contrapartida à ¿inclusão¿ de Israel. A pretensão dos EUA de deter a chave de todo sucesso econômico e de todos os ideais humanos e sua aspiração à completa hegemonia social e cultural ¿ muito mais forte hoje do que nos tempos em que exerceu de fato a hegemonia política ¿ seriam outros indícios do declínio de seu poderio econômico e militar real. Lembram o apego cada vez mais desesperado e exclusivista da Inglaterra às suas tradições, à medida que sua hegemonia se enfraquecia. Todd sugeriu que o realismo estratégico deve levar o principal rival econômico dos EUA, a Europa, a unir-se ao principal rival militar, a Rússia, para contrapor-se às pretensões de Washington, em uma inversão da fórmula dos anos 50. Nos meses seguintes, a união da França, Alemanha e Rússia contra as políticas de Bush no Iraque mostrou a viabilidade dessa nova aliança. A agitação ¿micromilitar¿ da Casa Branca estimula os grandes atores a se unir e buscar o equilíbrio estratégico da Eurásia sem os EUA ¿ precisamente o que a Casa Branca precisaria impedir se quiser reinar. Não é seu único desafio: há também a generalização da democracia e também ¿ pela ¿lei de Doyle¿ ¿ da paz entre as nações periféricas. Como Fukuyama, Todd julga esse processo inevitável, mas por razões diferentes. E o vê como ¿a grande ameaça democrática¿ aos EUA que, economicamente dependentes, precisam de desordem para justificar a presença político-militar no Velho Mundo. Seu peculiar modelo explicativo atribui o fenômeno à alfabetização em massa e à conseqüente difusão do controle de natalidade, que já são realidades na maior parte do mundo. As erupções de fundamentalismo, longe de ser sintomas de atraso ou de incompatibilidade radical entre Islã e Ocidente, representam crises de transição, como as revoluções e guerras européias do passado. Hão de se acalmar e desembocar em seu próprio modelo democrático e liberal (não necessariamente anglo-saxônico) ao completar o processo, como se vê no Irã. Para Todd, só dois países periféricos estrategicamente importantes ainda apresentam sérios riscos de instabilidade por estarem na fase inicial desse rito de passagem: o Paquistão e a Arábia Saudita, aliados de Washington. O outro perigo está nos próprios EUA: ao deslizar da democracia para a oligarquia ¿ processo que o autor relaciona à formação de uma classe privilegiada de instrução superior ¿, sai do âmbito da ¿lei de Doyle¿ e se torna um agressor potencial e uma ameaça à paz mundial. Todd admite que essa reestratificação também se vê na Europa Ocidental, mas acredita que as necessidades de seu continente o levarão a separar-se desse caminho. A teoria pode ser discutível, mas a convergência dos países periféricos, exemplificada pelo G 21, já preocupa os EUA. Dos dez mercados mais vitais para o crescimento do comércio norte-americano e mundial, sete estão no grupo: Brasil, Argentina, China, Índia, México, Indonésia e África do Sul (os outros são Polônia, Turquia e Coréia do Sul). Ao apelar à expansão da ajuda aos países mais pobres e a um ¿Fome Zero¿ mundial, o presidente do Brasil mostrou a disposição de representar o conjunto dos países periféricos, o que o tornou, no aspecto simbólico, um ator pelo menos tão importante quanto o presidente da França ao expressar o dissenso das potências. E a convergência com Chirac e Kofi Annan em relação à necessidade de reformar a ONU e o Conselho de Segurança sugere o caminho possível para uma ordem internacional alternativa. Nem tudo, porém, parece colaborar para concretizar o cenário previsto por Todd. As classes dominantes da Europa continuam demasiado presas às vantagens prometidas pelo modelo neoliberal proposto pelo Império para conseguir a independência e unidade indispensáveis ao papel de grande potência ¿ e, o que é mais importante, a confiança dos povos em sua visão estratégica. Tanto a rejeição do euro pelo eleitorado sueco, em defesa de sua social-democracia, quanto a derrota do Partido Social-Democrata de Schroeder, nas eleições regionais da Bavária, pelo voto de protesto contra a recessão imposta pelo Banco Central Europeu, foram sintomáticos. Deixaram mais distante, além disso, a possibilidade daquilo que para Todd seria o golpe de misericórdia no Império ¿ a opção definitiva do Reino Unido pela Europa. A mesma fraqueza foi revelada pelo Mercosul, na hesitação do governo brasileiro em solidarizar-se com o desafio argentino ao FMI. As considerações geopolíticas e culturais propostas por Todd são instigantes, mas é preciso lembrar que, ao opor as massas às elites em cada país, a lógica da luta de classes pode facilmente contrariar a do interesse nacional, ou mesmo imperial. Claro que isso também vale para o outro lado. Os EUA podem aprovar na ONU uma resolução que autorize uma força multinacional no Iraque sob comando do Pentágono, já que Chirac e Putin prometeram não vetá-la, mas daí a conseguir um apoio ativo vai um longo caminho, ao qual o projeto de Bush talvez não sobreviva. As pesquisas de opinião mostram que o apoio popular à política iraquiana caiu para 50% e candidatos de oposição mostram uma ligeira vantagem nas pesquisas, que a persistência do desemprego pode aprofundar a ponto de inviabilizar as manipulações que tornaram possível a vitória republicana de 2000. ESSE SOL JÁ SE PÕE? A ONU tenta conter um Império que se imagina nascente ¿ mas que alguns pensadores garantem já estar nas últimas. Por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa Depois de abrir a 58ª sessão da Assembléia Geral da ONU, ao condenar o novo ataque às Nações Unidas no Iraque e o caos que a ocupação trouxe ao país, o secretário-geral, Kofi Annan, atacou a política de ação preventiva, por abrir precedentes para a proliferação do uso unilateral e ilegal da força, com ou sem justificativa. ¿Essa lógica representa um desafio fundamental aos princípios sobre os quais a paz e a estabilidade mundiais repousaram nos últimos 58 anos.¿ ¿Pode-se, talvez, vencer uma guerra isoladamente. Mas não se pode construir a paz duradoura sem o concurso de todos. Não podemos confiar mais na ação militar do que nas instituições que criamos com a visão da história e a luz da razão¿, acrescentou o presidente Lula ao falar em seguida. Colocado no banco dos réus, o Império não se deu por achado. O redator da Casa Branca pareceu ter até esquecido que seu país já invadiu o Iraque e não encontrou lá ¿armas de destruição em massa¿, nem qualquer ligação com o terrorismo. O presidente Bush, terceiro a falar à Assembléia Geral, defendeu, mais uma vez, a ação preventiva contra terroristas equipados com armas não-convencionais. Voltou a pedir tropas e dinheiro para a reconstrução do Iraque, mas sem especificar se as nações que quiserem colaborar terão algum grau de controle sobre seu uso. Muito menos oferecer um papel político à ONU no Iraque ou qualquer outra concessão ao presidente francês Jacques Chirac, que pede uma rápida devolução da soberania ao Iraque e, ao chegar sua vez de falar, insistiu em seu ponto de vista: ¿A guerra lançada sem aprovação do Conselho de Segurança abalou o sistema multilateral. Ninguém pode se arrogar o direito de usar a força unilateralmente e preventivamente, nem aceitar uma sociedade sem regras¿. O veredicto do júri não pareceu favorável ao acusado. De acordo com a insuspeita agência Reuters, ¿enquanto Bush recebeu aplausos protocolares, Chirac, Annan e Lula inspiraram ovações muito mais sustentadas¿. Pouco importa, diriam tanto os apologistas da Pax Americana quanto muitos de seus críticos mais ferrenhos. O domínio dos Estados Unidos sobre o mundo nunca foi tão esmagador. Para a imprensa neoconservadora norte-americana, é às Nações Unidas que cabe engolir a retórica vazia e, se não quiserem deslizar definitivamente para a irrelevância, pedir desculpas, aceitar o papel subalterno que Bush generosamente lhes estende e mostrarem-se úteis ao Projeto para um Novo Século Americano, de Wolfowitz, Rumsfeld e companhia. Para o sociólogo norte-americano James Petras, ultra-esquerdista, é exatamente isso que a ONU já fez ¿ embora, naturalmente, esteja mais cético quanto à viabilidade, a longo prazo, da pretensão norte-americana de recriar o mundo à sua imagem e semelhança. Há, porém, outra interpretação, que ganhou plausibilidade com os acontecimentos recentes. Para o historiador e demógrafo francês Emmanuel Todd e o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein, os acontecimentos que estamos a presenciar são sintomas de uma hegemonia agonizante. Kofi Annan condenou o novo ataque do terrorismo à ONU e a desordem que a ocupação trouxe ao Iraque As duas análises, ainda que partam de ideologias opostas e adotem modelos explicativos bem diferentes ¿ Todd privilegia aspectos antropológicos, educacionais e demográficos e Wallerstein, a infra-estrutura econômica ¿, convergem no diagnóstico e no prognóstico: é para disfarçar sua decadência e impotência que o Império ostenta força militar. Em poucas décadas, Washington comandará apenas uma potência entre outras. A questão é como administrar seu declínio da melhor forma possível para todos ¿ inclusive para os próprios EUA. Wallerstein é um marxista, e é notório como sua escola tradicionalmente tendeu a ser demasiado apressada ao prever o inevitável declínio do inimigo. Mas Todd tem uma boa folha de serviços como profeta. Em 1976, quando a União Soviética estava no auge de seu poderio militar e de sua presença global, Todd publicou um ensaio chamado La Chute Finale (A Queda Final) em que anunciava, para antes do fim do século, o colapso do império soviético. Um cenário que nenhum dos lados da Cortina de Ferro julgava então concebível. No ano passado, em Depois do Império, assegurou que a hegemonia norte-americana está com os dias contados: desaparecerá completamente antes de 2050. O autor define-se como liberal (no sentido clássico, não no neoliberal), elogia Fukuyama, leva muito a sério a suposta ¿lei de Doyle¿ (que, formulada pelo cientista político Michael Doyle nos anos 80, assegura não serem possíveis guerras entre democracias liberais) e considera o capitalismo a única organização econômica razoável, desde que não seja entregue a si mesmo. Não pode ser acusado de antiamericanismo sistemático: pelo contrário, afirma que a hegemonia norte-americana existe desde o final da Segunda Guerra Mundial e, até 1990, foi benéfica para o mundo. Parece até esquecer a Guatemala, o Brasil, a República Dominicana, o Chile e demais democracias golpeadas direta ou indiretamente pelo Império liberal ao longo do século XX. Ao contrário do que ele parece acreditar, a aprovação pela Casa Branca da tentativa de golpe na Venezuela não rompeu um anterior compromisso com a democracia, mas confirmou uma velha tradição. Mesmo assim, Todd afirma que o surgimento do Império está sendo proclamado ¿ ou denunciado ¿ no preciso momento em que começa a se decompor, apenas uma década depois de seu rival soviético. A atual agressividade dos EUA, para ele, limita-se a um militarismo teatral, ostentado contra micropotências como Cuba, Coréia do Norte ou Iraque para justificar sua movimentação militar mundial, afirmar-se como imprescindível e retardar a conscientização das demais potências chamadas a compartilhar o controle do planeta ¿ Europa, Japão, Rússia e China. ¿Fale manso, mas carregue um porrete grande (big stick)¿, recomendava Theodore Roosevelt, o fundador do imperialismo norte-americano. Se, um século depois, o atual ocupante da Casa Branca prefere falar cada vez mais grosso, talvez seja por temer que seu porrete não é grande o suficiente. Apesar do orçamento recorde do Pentágono, Todd garante que isso já não basta para manter a hegemonia. O poder real no mundo moderno está na esfera econômica ¿ e nesta os EUA perdem, dia a dia, seu brilho. Sua produtividade é inferior à da Europa Ocidental e do Japão e sua balança comercial em produtos industriais é deficitária em mais de 10% de suas necessidades de consumo. Já é negativa até mesmo em produtos de alta tecnologia. A estagnação da demanda no resto do mundo, resultado da compressão dos salários pelo livre comércio e pelo neoliberalismo, permitiu a Washington exercer sobre as nações um papel regulador típico de um Estado keynesiano. Os demais países se portam, diz Todd, como súditos à espera da retomada global promovida pela Casa Branca. Em sua obra mais famosa, o economista John Maynard Keynes mostrou uma irônica simpatia para com os faraós construtores de pirâmides, gastadores, mas reguladores da atividade econômica. Os EUA, diz Todd, são a nova pirâmide, mantida pelo trabalho de todo o planeta (será aquela que aparece no dólar, sobre a inscrição Novus Ordo Seclorum ¿ A Nova Ordem Secular?). O enorme déficit comercial norte-americano é uma tributação imperial, como o que permitia à plebe romana consumir muito mais do que produzia. E os cidadãos mais capazes, como entre os antigos romanos, transformam-se em improdutivos advogados, guarda-livros e guarda-costas de seus plutocratas. Os EUA, porém, não podem obter tributo por coerção militar, como faziam os césares. Seu poder necessita da servidão voluntária das classes dirigentes européias e asiáticas, que espontaneamente oferecem seus capitais em troca de segurança e de alta rentabilidade financeira. Para Todd, ao serem sistematicamente depenados pelas fraudes contábeis de Wall Street e, ainda por cima, tratados como súditos de segunda categoria, essas classes dominantes vão concluir que aderir ao império deixou de ser uma opção razoável ¿ e arrastarão consigo seus próprios satélites. Os EUA não têm como impor obediência e tributo. Salvo contra forças muito inferiores, seu exército de terra nunca se mostrou realmente eficaz, o que impede a ocupação do terreno e a constituição de um espaço imperial no sentido habitual do conceito. Essa avaliação soava atrevida ao ser escrita, mas parece confirmada pela dificuldade do Pentágono em controlar o Iraque, apesar de comprometer nisso metade do Exército. Além disso, os EUA carecem da vocação universalista indispensável a um império ¿ e, de acordo com a teoria de Todd, não por uma opção política e ideológica conjuntural, mas por causa da estrutura antropológica de sua cultura. O universalismo implica uma crença sincera na igualdade dos povos, formada desde a infância por uma estrutura familiar que garanta a igualdade entre os irmãos ¿ seja segundo o modelo de família extensa e comunitária sob um patriarca autoritário, como na Europa Oriental, seja sob uma família nuclear igualitária, como em muitos países latinos. Seria preciso crescer em algum tipo de família igualitária para se aceitar a fusão de culturas e construir verdadeiros impérios ¿ como o dos romanos, que souberam promover a fusão de culturas e assimilar o pensamento grego e as religiões do Oriente. Contradição. A trinca Chirac, Putin e Schroeder articula a Eurásia contra o Império... Ao contrário, tanto a família de tipo germânico, baseada na linhagem ¿ que privilegia forçosamente o primogênito ¿, quanto a família nuclear anglo-saxônica ¿ que permite ao pai privilegiar ou deserdar os filhos de acordo com sua vontade ¿ induziriam atitudes diferencialistas, mais rígidas no primeiro caso, mais flexíveis e caprichosas no segundo. Os EUA precisariam excluir uns, incluir outros e traçar em algum lugar uma linha divisória, ainda que esta não precise ser tão absoluta e inalterável como para a Alemanha nazista, inspirada no primeiro modelo. Um império universal estaria, por isso, fora de seu alcance. A concorrência com o universalismo russo teria forçado as possibilidades antropológicas dos EUA ao máximo nos anos 60, quando tentaram convencer o mundo de que eram capazes de integrar até a minoria negra. Na ausência do desafio soviético, porém, seu universalismo regride a olhos vistos. É patente o crescimento da exclusão de negros e ¿hispânicos¿ dentro do país para compensar a aceitação de imigrantes asiáticos e europeus e a incapacidade de ver os árabes como seres humanos, em contrapartida à ¿inclusão¿ de Israel. A pretensão dos EUA de deter a chave de todo sucesso econômico e de todos os ideais humanos e sua aspiração à completa hegemonia social e cultural ¿ muito mais forte hoje do que nos tempos em que exerceu de fato a hegemonia política ¿ seriam outros indícios do declínio de seu poderio econômico e militar real. Lembram o apego cada vez mais desesperado e exclusivista da Inglaterra às suas tradições, à medida que sua hegemonia se enfraquecia. Todd sugeriu que o realismo estratégico deve levar o principal rival econômico dos EUA, a Europa, a unir-se ao principal rival militar, a Rússia, para contrapor-se às pretensões de Washington, em uma inversão da fórmula dos anos 50. Nos meses seguintes, a união da França, Alemanha e Rússia contra as políticas de Bush no Iraque mostrou a viabilidade dessa nova aliança. A agitação ¿micromilitar¿ da Casa Branca estimula os grandes atores a se unir e buscar o equilíbrio estratégico da Eurásia sem os EUA ¿ precisamente o que a Casa Branca precisaria impedir se quiser reinar. Não é seu único desafio: há também a generalização da democracia e também ¿ pela ¿lei de Doyle¿ ¿ da paz entre as nações periféricas. Como Fukuyama, Todd julga esse processo inevitável, mas por razões diferentes. E o vê como ¿a grande ameaça democrática¿ aos EUA que, economicamente dependentes, precisam de desordem para justificar a presença político-militar no Velho Mundo. Seu peculiar modelo explicativo atribui o fenômeno à alfabetização em massa e à conseqüente difusão do controle de natalidade, que já são realidades na maior parte do mundo. As erupções de fundamentalismo, longe de ser sintomas de atraso ou de incompatibilidade radical entre Islã e Ocidente, representam crises de transição, como as revoluções e guerras européias do passado. Hão de se acalmar e desembocar em seu próprio modelo democrático e liberal (não necessariamente anglo-saxônico) ao completar o processo, como se vê no Irã. ...mas o BCE mina o apoio popular à unidade européia, como mostrou o plebiscito sueco Para Todd, só dois países periféricos estrategicamente importantes ainda apresentam sérios riscos de instabilidade por estarem na fase inicial desse rito de passagem: o Paquistão e a Arábia Saudita, aliados de Washington. O outro perigo está nos próprios EUA: ao deslizar da democracia para a oligarquia ¿ processo que o autor relaciona à formação de uma classe privilegiada de instrução superior ¿, sai do âmbito da ¿lei de Doyle¿ e se torna um agressor potencial e uma ameaça à paz mundial. Todd admite que essa reestratificação também se vê na Europa Ocidental, mas acredita que as necessidades de seu continente o levarão a separar-se desse caminho. A teoria pode ser discutível, mas a convergência dos países periféricos, exemplificada pelo G 21, já preocupa os EUA. Dos dez mercados mais vitais para o crescimento do comércio norte-americano e mundial, sete estão no grupo: Brasil, Argentina, China, Índia, México, Indonésia e África do Sul (os outros são Polônia, Turquia e Coréia do Sul). Ao apelar à expansão da ajuda aos países mais pobres e a um ¿Fome Zero¿ mundial, o presidente do Brasil mostrou a disposição de representar o conjunto dos países periféricos, o que o tornou, no aspecto simbólico, um ator pelo menos tão importante quanto o presidente da França ao expressar o dissenso das potências. E a convergência com Chirac e Kofi Annan em relação à necessidade de reformar a ONU e o Conselho de Segurança sugere o caminho possível para uma ordem internacional alternativa. Nem tudo, porém, parece colaborar para concretizar o cenário previsto por Todd. As classes dominantes da Europa continuam demasiado presas às vantagens prometidas pelo modelo neoliberal proposto pelo Império para conseguir a independência e unidade indispensáveis ao papel de grande potência ¿ e, o que é mais importante, a confiança dos povos em sua visão estratégica. Tanto a rejeição do euro pelo eleitorado sueco, em defesa de sua social-democracia, quanto a derrota do Partido Social-Democrata de Schroeder, nas eleições regionais da Bavária, pelo voto de protesto contra a recessão imposta pelo Banco Central Europeu, foram sintomáticos. Deixaram mais distante, além disso, a possibilidade daquilo que para Todd seria o golpe de misericórdia no Império ¿ a opção definitiva do Reino Unido pela Europa. A mesma fraqueza foi revelada pelo Mercosul, na hesitação do governo brasileiro em solidarizar-se com o desafio argentino ao FMI. As considerações geopolíticas e culturais propostas por Todd são instigantes, mas é preciso lembrar que, ao opor as massas às elites em cada país, a lógica da luta de classes pode facilmente contrariar a do interesse nacional, ou mesmo imperial. Claro que isso também vale para o outro lado. Os EUA podem aprovar na ONU uma resolução que autorize uma força multinacional no Iraque sob comando do Pentágono, já que Chirac e Putin prometeram não vetá-la, mas daí a conseguir um apoio ativo vai um longo caminho, ao qual o projeto de Bush talvez não sobreviva. As pesquisas de opinião mostram que o apoio popular à política iraquiana caiu para 50% e candidatos de oposição mostram uma ligeira vantagem nas pesquisas, que a persistência do desemprego pode aprofundar a ponto de inviabilizar as manipulações que tornaram possível a vitória republicana de 2000. Artigo de Robert Zoellick no Finacial Times, em virtude do emperramento das negociações na OMC liderado pelo Brasil America Will Not Wait for the Won't-do Countries By Robert B Zoellick - U.S. Trade Representative The final minutes of the World Trade Organisation [WTO] session in Cancun were symptomatic of the whole meeting: we stalled after representatives of the least developed, African, and Caribbean countries reported that their colleagues had rejected any negotiation to update the 1947 rules on customs procedures. The breakdown occurred over measures that would have simply facilitated trade and helped land-locked countries by ensuring prompt release of goods, publication of procedures, and timely and fair rulings on customs questions. These commonsense steps are in the interest of all; their rejection was a political statement. Sadly, this decision was emblematic of a broader culture of protest that defined victory in terms of political acts rather than economic results. As Luis Ernesto Derbez, Mexico's foreign minister and chairman of the meeting, closed the session, representatives of influential developing countries finally rushed forward to say they wanted to keep going. They correctly recognised that the draft text offered an excellent opportunity to press the European Union [EU] to eliminate agricultural export subsidies; to achieve big cuts in farm subsidies in the US, EU and other countries; to impose a ceiling on unbelievably high Japanese tariffs; and to open agricultural markets for developed and developing countries alike. Yet they were too late. The previous evening, country after country had scorned the draft text, the negotiating process and other countries. The United Nations General Assembly has its role, but it does not offer an effective model for trade negotiations. A few ministers pointed out that increasingly radical rhetoric would make it harder for all -- especially developing country groups with many smaller members -- to consider realistic compromises. Countries that feel victimised are unlikely to agree to anything. Cancun could have followed a different course. Only weeks before, we had worked together to resolve the difficult issue of ensuring that poor developing countries could gain access to low-cost, life-saving medicines while protecting intellectual property. But at Cancun the naysayers' tactics thwarted those who would have cut agricultural subsidies and tariffs, triggering reform of farm policy in the US, EU, Japan, Canada and elsewhere. They passed up an opportunity to open developing country markets gradually to other developing countries. They stymied global sourcing and production networks, which integrate developed and developing country businesses to mutual benefit. And they walked away from rules on openness and transparency that fight favouritism and corruption. Key mid-level developing countries employed the rhetoric of resistance as a tactic both to put pressure on developed countries and to divert attention from their own trade barriers. India's average bound agricultural tariff is 112 per cent, Egypt's 62 per cent and Brazil's 37 per cent -- compared with a US average of 12 per cent. Their average bound tariffs on manufactured goods are at least 10 times larger than the US average of 3 per cent. We should be able to reduce these barriers while protecting the poorest nations and providing flexibilities for special sensitivities in the bigger countries. After the US pressed the EU to develop an agricultural framework that could achieve farm subsidy and tariff cuts far beyond those achieved in the last global trade negotiation, we asked Brazil and other agricultural powers to work with us. Brazil declined, turning instead to India, which has never supported opening markets, so as to emphasise north-south division not global agricultural reform. Smaller developing countries resisted the reduction of US and EU tariffs because they calculated that they would lose the advantages offered by special US and EU programmes that eliminate tariffs only for their exports. Unfortunately, these well-meaning trade preference programmes have undermined the push for two-way openings, perpetuating dependency. Four African countries insisted on "compensation" of between $250 million and $1 billion ... annually, and unilateral elimination of cotton subsidies. Over the course of 50 years, global trade negotiations have progressed because countries could trade off cuts across products and even sectors to achieve a balanced result. The US has no export subsidies on cotton and proposed the elimination of all export subsidies. We committed to cut domestic cotton subsidies as part of an overall package that would also have reduced European and Chinese cotton subsidies, along with all agricultural subsidies. Instead of making cotton a symbol, we wanted to make development a reality through concrete results for cotton farmers, exporters and manufacturers of cotton products, along with all farmers. The tactics of confrontation included an assault on one of the few devices that the WTO can use to prod its 148 members towards consensus: presenting a chairperson's text for discussion and negotiation. Brazil, India and others refused even to work off an agricultural text drafted by the Uruguayan WTO chairman and forwarded by the WTO's Thai director-general. Even after Singapore's tireless minister had worked non-stop with all parties to prepare a new agricultural draft reflecting a balanced compromise, Brazil and its colleagues presented a massive list of required changes. If they were serious about negotiating a compromise for 148 countries, they overplayed their hand by failing to signal that intention. They returned home without any cuts in subsidies and tariffs. As Chairman Derbez closed the Cancun meeting, he asked countries to reassess prospects by December 15. We know well what developing countries are demanding, but have not heard whether more competitive developing economies will cut their high barriers. We do not know whether other developing countries that blocked action in Cancun will now accept packages that ask little or nothing of them. The US stands ready to work with the draft text across the full agenda. As the Doha negotiations drift into next year, however, we recognise that a new European Commission may reflect different perspectives. Many countries -- developing and developed -- were dismayed by the transformation of the WTO into a forum for the politics of protest. Some withstood pressure to join the strife from larger developing neighbours. Of course, negotiating positions differed. But the key division at Cancun was between the can-do and the won't-do. For over two years, the US has pushed to open markets globally, in our hemisphere, and with sub-regions or individual countries. As WTO members ponder the future, the US will not wait: we will move towards free trade with can-do countries. Segunda-feira, Setembro 22, 2003
If - Rudyard Kipling Tradução de Guilherme de Almeida Se és capaz de manter a tua calma quando Todo mundo em redor já a perdeu e te culpa. De crer em ti quando estão todos duvidando E para esses, no entanto, achar uma desculpa; Se és capaz de esperar sem te desesperares, Ou, enganado, não mentir ao mentiroso, Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares, E não parecer bom demais nem pretensioso; Se és capaz de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores; De pensar - sem que a isso só se atires; Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires Tratar da mesma forma a esses dois impostores; Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas Em armadilhas as verdades que disseste E as coisas por que deste a vida, estraçalhadas, E refazê-las como o bem pouco que te reste; Se és capaz de arriscar numa única parada Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida, E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada, Resignado tornar ao ponto de partida; De forçar coração, nervos, músculos, tudo A dar seja o que for que neles ainda existe, E a persistir assim, quando exaustos, contudo Resta a vontade em ti, que ainda ordena: Persiste; Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes; E, entre Reis, não perder a naturalidade, E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes; Se a todos podes ser de alguma utilidade; Se és capaz de dar, segundo a segundo, Ao minuto fatal todo o valor e brilho; Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo. E - o que ainda é muito mais - és um HOMEM, meu filho. If you can keep your head when all about you Are losing theirs and blaming it on you; If you can trust yourself when all men doubt you, But make allowance for their doubting too; If you can wait and not be tired by waiting, Or, being lied about, don't deal in lies, Or, being hated, don't give way to hating, And yet don't look too good, nor talk too wise; If you can dream--and not make dreams your master; If you can think--and not make thoughts your aim; If you can meet with triumph and disaster And treat those two impostors just the same; If you can bear to hear the truth you've spoken Twisted by knaves to make a trap for fools, Or watch the things you gave your life to broken, And stoop and build 'em up with worn-out tools; If you can make one heap of all your winnings And risk it on one turn of pitch-and-toss, And lose, and start again at your beginnings And never breathe a word about your loss; If you can force your heart and nerve and sinew To serve your turn long after they are gone, And so hold on when there is nothing in you Except the Will which says to them: "Hold on!" If you can talk with crowds and keep your virtue, Or walk with kings--not lose the common touch; If neither foes nor loving friends can hurt you; If all men count with you, but none too much; If you can fill the unforgiving minute With sixty seconds' worth of distance run-- Yours is the Earth and everything that?s in it, And--which is more--you'll be a Man, my son! Quinta-feira, Setembro 18, 2003
CRÔNICA DE IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO FONTE: O GLOBO ON LINE Quem são os que dizem? Sempre vinham contar: dizem que ela está apaixonada por fulano; dizem que o gerente do banco deu um golpe; dizem que apareceu um remédio novo contra o câncer; dizem que a mulher do Emanuel é sapata; dizem que o professor Deoclécio foi processado por assédio sexual na faculdade; dizem que... Há semanas ele tinha começado a se preocupar com o verbo dizem. Assim, na primeira vez que um amigo chegou começando pelo dizem, ele foi rápido: - Dizem mesmo? - Dizem. - Quem diz? - Me contaram. - Alguém contou a esse alguém. - Claro! Se não, como a pessoa ia me contar? - Qual é a cara de quem diz? - Não tem cara. Quando se diz dizem, é porque mais de uma pessoa disse. - Quem são essas pessoas? - Como quem são? Um monte. - Um monte? Quantas? Como são? - Não tenho a mínima idéia! - Por que você não construiu a frase assim: fulano me disse que...? Nomeando o fulano. - Sei que ele só repetiu o que disseram a ele. - Um repete o outro e os que dizem não têm cara? - Não. - Não foi uma pessoa só? - Não. - São muitas? - Não vê que dizem é plural? - Fulano ouviu de uma pessoa, que ouviu de outra, que ouviu de uma terceira, que ouviu de uma quarta. Então, quando é assim se diz dizem? - Agora entendeu! Quando todo mundo está dizendo, é porque aconteceu alguma coisa que todo mundo sabe. - Eu não sabia. - Acabei de contar. - Por que não me disse: soube que...? - Por que implicou com o dizem? - Dizem. Só não se sabe se é verdade? Dizer dizem não compromete ninguém, atribui-se ao outro a responsabilidade pela informação! - Nem sempre. - Pode ser mentira? - Pode. - Um repete o outro sem averiguar? - Temos de averiguar tudo o que dizem? - Acho que sim! Para saber onde e como começou. - E de que maneira saber como começou? - Fazendo o caminho inverso. Indo na marcha à ré! - Qual é? - Se vou contar a alguém que você me disse, em vez de dizer: dizem, eu digo: fulano me contou. - Qual é a diferença? - Se digo dizem e repasso, assumo que acredito. Se digo que fulano me contou, transmito a informação e não me responsabilizo por ela. O dizem refere-se a uma entidade abstrata. Abstratos não têm responsabilidade, são como os loucos. Refazendo a cadeia do dizer, chegamos ao primeiro, ao que viu acontecer, presenciou, sabe a verdade. Ou criou! Inventou! - Precisa complicar tanto? - Não estou complicando, quero a verdade. - Já te disse mentiras? - Me disse tantas coisas. Nem sei quais foram mentiras ou não. - Sou teu melhor amigo. - E não pode mentir para mim? Há tantos melhores amigos que se revelam os piores, nos invejam, traem, são falsos, duas caras! - Por que razão faria isso? - Há sempre uma razão. Pode não gostar de mim e dissimular. Pode me invejar. Querer ser o que sou. Quando eu repetir a informação que você me deu, vai correr ao outro e me apontar: "Viu? Ele é mentiroso." Você pode não gostar dessa pessoa sobre a qual está dizendo uma coisa. - Nem a conheço! Me contaram, te contei! - Quem te contou ouviu de quem? E este quem recebeu de qual quem? Indo no contrafluxo, chega-se ao primeiro. Você foi? - Não. - Então? - Então, o quê? - Repassa e tira o seu da seringa. Com o dizem, você cai fora: não inventou, só repassou. - E é verdade! Nada tenho com isso. - Tudo o que me interessa é saber onde nasceu. - Impossível. - Vamos nós dois a quem te contou. - Não me lembro, foi no balcão da padaria. - Não conhece o sujeito? - Estava atrás de mim contando para o relojoeiro. - Vamos ao relojoeiro. - Precisa? - Não quer saber a verdade? - Eu, não! Você, sim! - É uma obrigação! - Minha, não! Você ficou obcecado de repente. - Não é obrigação nossa saber a verdade? - Não neste caso! - Há casos em que uma coisa deve ser verdade e em outros não? - Neste caso não precisa. É só uma coisa que dizem por aí. - Quem diz? - Todo mundo! - Quem é todo mundo? - Todo mundo é todo mundo. - A frase certa é todo o mundo. Tem o artigo. - Dá na mesma. - Não dá! Quem são as pessoas que compõem todo esse mundo ao qual você se refere? Todos os brasileiros, os argentinos, chilenos, uruguaios, paraguaios, bolivianos, franceses, americanos, ingleses, italianos, austríacos, monegascos? Que palavra, hein? Monegascos. Será que os equatorianos também estão dizendo? Os afegãos? Os neozelandeses? Se não estão, não é todo o mundo. - Sabe o que acontece? Você ficou pancada! Não bate bem. Deve estar com mal de Alzheimer. Bem que tinham me avisado. Dizem que você virou chato, pé no saco, enfadonho, aborrecido, maçante. Um fardo, flagelo. - Dizem? - Sim? - Dizem é? Vamos lá: quem são os que dizem? Segunda-feira, Setembro 08, 2003
ASSUNTO: Sabotagem no VLS em Alcântara FONTE: e-mail VERACIDADE: não verificada Como todo texto de internet... suspeito...mas de qualquer forma segue.... O que é verdade???? Alcântara. Acidente? Em 1997, quando exercia a função de repórter correspondente da CBN, em Brasília, recebi a informação de uma fonte de minha confiança, dando conta de que o Governo Brasileiro temia por uma sabotagem americana ao primeiro teste de lançamento do VLS - Veículo Lançador de Satélites. Minha fonte era um oficial da Aeronáutica, envolvido no projeto do foguete. Segundo denunciei em reportagem na época, o Governo estava tomando precauções adicionais para evitar tal sabotagem, como a ampliação da zona de interdição aérea de 50 para 100 km. Ou seja, nenhuma aeronave poderia invadir este espaço aéreo durante os procedimentos de lançamento, sob risco de ser abatida. Segundo havia me informado esse oficial da Aeronáutica, em todos os testes com os veículos sonda - os estágios do VLS, aconteceram violações da zona de interdição aérea. Segundo esse oficial, tratava-se de um avião-radar E-2C Hawkey, dos Estados Unidos. Esse avião, segundo narrou à época, emitia interferência eletrônica suficiente para prejudicar os testes. Os jatos de interceptação da FAB chegaram a ser acionados, mas não conseguiam o contato. O lançamento do VLS, apesar dos procedimentos de segurança, não deu certo. Uma falha forçou as equipes em terra a destruírem o foguete em pleno ar. A mesma coisa aconteceu em 99, na segunda tentativa de lançamento. Sabotagem? Segundo minha fonte, sim. Depois de minha reportagem, passei a ser vigiado de perto por dois homens, aparentando agentes da CIA. Os dois me seguiam a todos os lugares que eu fosse. Cheguei até a pedir que a CBN providenciasse segurança para mim. Eram dois branquelos de terno num Santana cinza chumbo. Os supostos agentes da CIA só largaram do meu pé depois de um desmentido do Governo Brasileiro. O presidente da Agência Espacial Brasileira, à época, me chamou para uma entrevista e desmentiu os rumores de sabotagem. Ele desmentiu sim, mas sem convicção. Não foi convincente. Ele nem mesmo se esforçou para ser convincente. Acho que ele não quis ser convincente. Por quê os americanos estão sabotando nosso programa espacial? Segundo esse mesmo oficial da Aeronáutica, são três os motivos: em primeiro lugar, porque a tecnologia do VLS é russa. Os russos nos deram informações suficientes para um pontapé inicial. Em segundo lugar, estamos entrando num rico filão do mercado comercial, o de lançamento de satélites. A base de Alcântara está próxima da linha do Equador e isso faz com que os lançamentos se tornem bem mais baratos que os da Base de Cabo Canaveral, nos Estados Unidos, por exemplo. De Alcântara é possível lançar um foguete a um custo três vezes menor. Com menos combustível necessário, aumenta-se a área útil do foguete e podemos lançar mais satélites. E em terceiro lugar, se o Brasil colocar uma ogiva nuclear na ponta do VLS, ele poderia se transformar num míssil balístico transcontinental. Seríamos mais um país a ameaçar a soberania americana. A questão é: por quê o Governo Brasileiro se esforça tanto para descartar as hipóteses de sabotagem? Em 1997 conseguiram abafar minha denúncia e evitar um incidente diplomático. Mas naquela época não havia vítimas. Desta vez, 21 brasileiros estão mortos e o Governo continua tapando o sol com a peneira. Fábio Paiva - jornalista Quarta-feira, Setembro 03, 2003
ASSUNTO: EUA estaria praticando 'bioterrorismo' contra o Brasil? FONTE: Jornal da ciência Online, número 2356 Um estranho caso contado pela coluna 'Observer' do 'Financial Times', de Londres, no texto 'Do Brasil, com amor?' Eis o que diz o texto: EUA e Brasil travaram no passado disputas comerciais. Porém, o último embate talvez venha a ser o primeiro em que tenha sido levantada alguma suspeita de espionagem. O Brasil alega que um representante do Depto. Americano de Agricultura foi encontrado em plantação de soja no interior do Estado da Bahia. Ao que tudo indica, ele investigava um perigoso fungo responsável pela queda das folhas de soja e afeta gravemente a produção. 'Eles estão praticando bioterrorismo', acusa uma autoridade brasileira do setor agrícola, insinuando que o representante americano pretendesse disseminar o fungo. Qualquer que fosse sua missão na Bahia, este agente do Depto. de Agricultura que viajou ao Brasil oficialmente para participar de uma conferência sobre fitopatologia (doenças de plantas), foi convidado a retirar-se do país. Autoridades brasileiras afirmaram não ter recebido qualquer informação acerca de sua pesquisa botânica de campo. Autoridades do governo americano confirmaram o incidente para a coluna Observer, mas anteciparam que ainda investigam o que fazia de fato seu emissário na Bahia. Exagerada ou não, a reação brasileira prova que os dois países disputam o título de maior exportador mundial de soja - e na guerra e no amor tudo vale. (Tradução: André Medina Carone) (Financial Times, Uol.com/Mídia Global, 3/9) Segunda-feira, Setembro 01, 2003
ASSUNTO: Estrangeiros dominando região Norte FONTE: e-mail VERACIDADE DO AUTOR: ainda não verificada VERACIDADE DOS FATOS: ainda não verificada OCUPAÇÃO NO NORTE DO PAÍS Sílvio Malta Rangel Drummond "Oi pessoal. As duas semanas em Manaus foram interessantes para conhecer um Brasil um pouco diferente mas, chegando em Boa Vista (RR), não pude resistir a fazer um relato das coisas que tenho visto e escutado por aqui. Conversei com algumas pessoas nesses três dias, desde engenheiros até pessoas com um mínimo de instrução. Prá começar o mais difícil de se encontrar por aqui é roraimense! Para falar a verdade, acho que a proporção de um roraimense para cada 10 pessoas é bem razoável: tem gaúcho, carioca, cearense, amazonense, piauiense, maranhense e por aí vai. Portanto falta uma identidade com a terra. Aqui não existem muitos meios de sobrevivência: ou a pessoa é funcionária pública, e aqui quase todo mundo o é, pois em Boa Vista se concentram todos os órgãos federais e estaduais de Roraima, além da prefeitura é claro. Se não for funcionário público a pessoa trabalha no comércio local ou recebe ajuda de programas do governo. Não existe indústria de qualquer tipo. Pouco mais de 70% do território roraimense é demarcado como reserva indígena, portanto restam apenas 30%, descontando-se os rios e as terras improdutivas (que são muitas!), para se cultivar a terra ou para a localização das próprias cidades. Na única rodovia que existe em direção ao Brasil (liga Boa Vista a Manaus, cerca de 800km) existe um trecho de aproximadamente 200km (reserva indígena Waimiri Atroari) por onde você só passa entre 6:00 da manhã e 6:00 da tarde! Nas outras 12 horas a rodovia é fechada pelos índios (com autorização da FUNAI "e dos americanos") para que os mesmos não sejam incomodados! Detalhe: você não passa se for brasileiro, mas o acesso é livre aos americanos, europeus e japoneses! Desses 70% de território indígena, diria que em 90% dele ninguém entra sem uma grande burocracia e autorização da FUNAI! Detalhe: americanos entram na hora que quiserem! Outro detalhe: se você não tem uma autorização da FUNAI, mas tem a dos americanos, então você pode entrar! A maioria dos índios fala a língua nativa além do inglês ou francês, mas a maioria não sabe falar português.Dizem que é comum, na entrada de algumas reservas, encontrarem-se hasteadas bandeiras americanas ou inglesas! É comum se encontrar por aqui americanos tipo "nerds" com cara de quem não quer nada, que "vieram caçar borboleta e joaninha e catalogá-las" mas, no final das contas, pasmem, se você quiser montar um empresa para exportar plantas e frutas típicas como cupuaçu, açaí camu-camu etc, medicinais, ou componentes naturais para fabricação de remédios, pode se preparar para pagar royalts para empresas japonesas e americanas que já patentearam a maioria dos produtos típicos da amazônia! Por três vezes repeti a seguinte frase após ouvir tais relatos: "é os americanos irão acabar tomando a amazônia" e em todas elas ouvi a mesma resposta em palavras diferentes.Reproduzo a resposta de uma senhora simples que vendia suco e água na rodovia próximo de Mucajaí: "irão não meu filho, tu não sabe mas tudo aqui já é deles! Eles comandam tudo! Você não entra em lugar nenhum porque eles não deixam! Quando acabar essa guerra aí eles virão pra cá, e vão fazer o que fizeram no Iraque, quando determinaram uma faixa para os curdos onde iraquiano não entra! Aqui vai ser a mesma coisa." A dona é bem informada não? O pior é que segundo a ONU o conceito de nação é um conceito de soberania e as áreas demarcadas têm o nome de nação indígena ....... O que pode levar os americanos a alegarem que estarão libertando os povos indígenas. Fiquei sabendo que os americanos já estão construindo uma grande base militar na Colômbia, bem próximo da fronteira com o Brasil numa parceria com o governo colombiano com o pseudo objetivo de combater o narcotráfico. Por falar em narcotráfico, aqui é rota de distribuição pois essa "mãe" chamada Brasil mantem suas fronteiras abertas e aqui tem estrada para as Guianas e Venezuela. Nenhuma bagagem de estrangeiro é fiscalizada , principalmente se for americano , europeu ou japonês, "isso pode causar um incidente diplomático"! Dizem que tem muito colombiano traficante virando venezuelano, pois na Venezuela é muito fácil comprar a cidadania venezuelana por cerca de 200 dólares.Pergunto inocentemente às pessoas; porque os americanos querem tanto proteger os índios e a resposta é absolutamente a mesma: "porque as terras indígenas além das riquezas animais e vegetais, da abundância de água, são extremamente ricas em ouro (encontram-se pepitas que chegam a ser pesadas em quilos), diamante, outras pedras preciosas, minério e, nas reservas norte de Roraima e Amazonas, ricas em PETRÓLEO". Parece que as pessoas contam essas coisas como que num grito de socorro a alguém que é do sul, como se eu pudesse dizer isso ao presidente ou a alguma autoridade do sul que vá fazer alguma coisa. Saio daqui com a quase certeza de que, em breve, o Brasil irá diminuir de tamanho. Acorda Brasil !!!!. COMENTÁRIO: No mínimo preocupante. Claro que pode ser mais uma história (como aquela de que existiam mapas nos EUA onde a Amazônia aparecia como território sob controle internacional). |